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Educação antes de tudo

As dificuldades na área da educação brasileira são enormes. O ensino, que demorou muito tempo para ser universalizado no país, ainda hoje é deficitário e acarreta sérios problemas, inclusive na reaprendizagem (tema principal dessa edição da ADM PRO). Para falar sobre o assunto, conversamos com a Adm. Claudia Costin, ex-diretora Global de Educação do Banco Mundial e Secretária Municipal de Educação no Rio de Janeiro entre 2009 e 2014. Claudia, especialista na área da educação, integra hoje o corpo docente da Fundação Getulio Vargas. Em 2017, foi homenageada pelo CRA-SP com o prêmio Administrador Emérito e, no ano seguinte, fez parte da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho da OIT – Organização Internacional do Trabalho, uma agência das Nações Unidas. Nesta entrevista exclusiva, ela traça um histórico importante do ensino brasileiro, ajudando-nos a compreender muitas das atuais falhas e permitindo que, ao reconhecermos nossas deficiências, possamos mudar o futuro do país e dos nossos profissionais. Confira:  

Revista Administrador Profissional – ADM PRO: Claudia, como você vê a educação para o mercado de trabalho hoje?

Adm. Claudia Costin: Nós temos um atraso que nos prejudicou muito. Em 1930, o Brasil tinha só 21,5% das crianças na escola, enquanto a Argentina já possuía 62% e o Chile 73%. Quando chegamos no final dos anos 60, a Coreia, que no início estava empatada conosco, contava com 100% das crianças na escola, a Argentina e o Chile também já tinham feito essa universalização e o Brasil tinha apenas 40%. Estou olhando lá para trás para mostrar que esse atraso nos fez pagar um preço muito grande em termos de formação da força de trabalho, não só para aquela geração de trabalhadores, mas também para as seguintes, pois 68% do sucesso escolar de uma criança depende da escolaridade dos pais. Somado a isso, a partir de meados dos anos 90, tivemos que recrutar muito rapidamente professores e, de alguma maneira, a atratividade da carreira caiu, pois era preciso educar a todos e ensinar os filhos de pais de escolaridade limitada, o que é muito mais desafiador. A baixa atratividade da profissão explica o problema da baixa aprendizagem quando o aluno chega, na escola técnica ou no ensino superior, com defasagens importantes. O Brasil precisa olhar para isso, senão iremos desperdiçar recursos públicos e construir uma geração que não terá empregabilidade nessa 4ª Revolução Industrial, na qual a inteligência artificial e a automação acelerada vêm substituindo o trabalho humano e extinguindo postos de trabalho numa velocidade sem precedentes.

ADM PRO: Essa educação deficiente que o adulto carrega para a universidade é uma das causas que o leva a não saber aproveitar a enorme quantidade de conhecimento que está disponível, mas que não é absorvida ou aproveitada da maneira como deveria ser?

Claudia: Os jovens que estão sendo formados precisam ser preparados não só para as competências básicas (como saber ler e entender), mas também para pensamentos mais abstratos, sistêmicos e críticos, pois é isso que nos diferencia dos robôs. Não estou falando de futuro, mas sim do presente. Se não soubermos lidar com essa quantidade imensa de informação à disposição, a inteligência artificial fará isso por nós, mas sem gerar emprego, renda e vida decente para todo mundo, pois muitas pessoas serão excluídas. Quando falamos de desenvolvimento e competitividade do Brasil, é muito importante que essas ações sejam inclusivas e, para isso acontecer, é fundamental que a educação melhore, porque senão teremos máquinas fazendo o nosso trabalho, um crescimento brutal da desigualdade social, da violência e uma sociedade não coesa, que é tudo o que não desejamos.

ADM PRO: E como estamos nesse panorama mundial em relação a outros países?

Claudia: Não estamos bem. No PISA (Programme for International Student Assessment, coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE), que compara o desempenho dos países, não com base em currículo, mas, sim, em competências, inclusive as que necessitamos para a vida adulta, o Brasil está em 66º lugar em matemática, 63º em ciências e 59º em leitura, de acordo com os últimos resultados divulgados. Isso dentre as 70 economias que participaram do exame e sabendo que o Brasil é o 9º país em termos de PIB. Eu acredito que esses resultados são muito inadequados e, ao olhar os microdados para saber onde nos saímos particularmente mal, percebi que sabemos a Tabela Periódica em química, mas não conseguimos pensar cientificamente; conhecemos a Fórmula de Bhaskara, mas não sabemos pensar matematicamente. Temos, ainda, muita dificuldade de leitura e interpretação de textos. Em outra prova da qual o Brasil participou, de resolução colaborativa de problemas com criatividade, tiramos o último lugar, dentre 44 economias participantes. Isso mostra que precisamos avançar e rápido.

ADM PRO: Nesse sentido, o Brasil possui alguma política pública para desenvolver o pensamento crítico dos alunos?

Claudia: Isso, na verdade, precisa coincidir com a política educacional e passa por definir um currículo muito mais contemporâneo (e o Brasil já está fazendo esse esforço, o que é um dado muito positivo). No final do ano passado, passamos a ter uma Base Nacional Comum Curricular completa e agora ela está sendo traduzida em currículos estaduais e nacionais. Mas isso não é suficiente. Precisamos também mudar a formação do professor de educação básica para que ele também desenvolva competências do século XXI e tenha muito mais conexão com a prática. Um aluno de medicina, por exemplo, desde o primeiro ano da faculdade, entra em um hospital universitário. No caso da formação de um docente, o aluno pode estudar três anos e meio de matemática, fazer um pequeno estágio e pronto, virar professor. Não pode ser assim. Para que tenhamos alunos que de fato aprendam, devemos melhorar a formação do professor e tornar a carreira mais atrativa, o que também passa por salários e pelo maior reconhecimento social da profissão.

ADM PRO: Claudia, falando agora dos cursos superiores, em especial o de bacharelado em Administração, nós ainda vemos muita teoria que os alunos, talvez, não consigam aplicar na prática do mercado. Como podemos resolver essa questão?

Claudia: Durante muito tempo, o ensino de técnica não tinha prestígio. De repente, caímos no extremo oposto, de só ensinar técnica. Na verdade, precisamos ensinar as duas coisas e aí entra a questão do reaprender. Se é verdade que a inteligência artificial e a automação acelerada vão extinguir muitos postos de trabalho, também é verdade que outros serão criados, porém demandando competências diferentes. Estima-se que cerca de 2 bilhões de empregos serão extintos até 2030, mas isso não acontecerá de uma vez e sim em ondas sucessivas na medida em que novos postos serão criados. Isso vai obrigar o profissional do futuro a constantemente se reinventar, desaprender e reaprender. Isso só é possível se o seu professor, não interessa em qual área de formação, se preparar para esse contexto também. Isso valoriza uma competência que não se pratica, seja na educação básica, seja no ensino superior, que é ser aprendiz para toda a vida. Os profissionais, daqui pra frente, irão atuar em tarefas muito mais sofisticadas, com mais capacidade de análise, para programar a inteligência artificial no setor em que atuam.  

ADM PRO: Essas mudanças serão, então, ainda mais rápidas e dinâmicas para os professores?

Claudia: Sim, até mesmo para mostrar ao estudante onde é que ele terá que aprender novamente. Eu não vou conseguir convencer o meu aluno a constantemente reaprender se eu, como professor, não fizer isso. E aí voltamos às questões técnicas. É importante aprendê-las, mas sabendo que serão muito rapidamente substituídas por outras. Porém, cada técnica que eu aprendo, me ensina a pensar tecnicamente e isso será válido para eu ver que o foi aprendido lá no início já foi superado e que eu terei que absorver as novas técnicas sozinho ou por meio de cursos rápidos.

ADM PRO: Você acredita que as empresas têm um papel importante nessa reaprendizagem ou essa é uma responsabilidade exclusiva do profissional?

Claudia: Primeiro, eu acredito na formação de um indivíduo autônomo, que não precise depender da empresa. Mas também existe um outro problema relacionado a isso que é o que chamamos de reshoring, ou seja, as companhias que vieram para cá atrás de mão de obra barata, mas quando a tecnologia torna mais atrativo voltar para suas sedes (usando a automação e substituindo o trabalho humano), retornam. Com isso, o trabalhador fica sem ter o que fazer, a menos que se reinvente e saiba que empreender sua própria vida é parte do seu trabalho. Parte da solução do problema está, então, com o indivíduo, parte com o poder público (pois isso integra uma política social competente, que prevê lidar com riscos associados como desemprego, desigualdade social e desenvolvimento do cidadão) e outra parte com agências de aconselhamento sobre competências. As empresas, porém, também têm um papel importante. Uma organização que pensa de maneira sustentável e que tem uma responsabilidade social corporativa efetiva, se antecipa a esses eventuais movimentos e considera nos seus planos de investimento os resultados sociais das suas decisões, investindo em trabalhadores que, eventualmente, não ficarão com ela. Há muitas empresas que olham para questões como outplacement, deixando os profissionais aptos para se recolocarem no mercado de trabalho de uma maneira interessante e em algo que lhes dê dignidade e renda, além de um trabalho instigante. 





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