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Aprender e reaprender: uma jornada para a vida

Assim como democratizou o conhecimento, a tecnologia está colocando fim às rotinas de trabalho. Agora, de muitas maneiras, os profissionais terão que reaprender o que significa ser humano e isso inclui descobrir e desenvolver, constantemente, talentos e habilidades para executar tarefas que as máquinas não serão capazes de fazer sozinhas.

Vivemos, definitivamente, em uma nova era. Nela, conhecimentos antes imutáveis e aprisionados em páginas estáticas de livros expostos em estantes ganharam a liberdade e, à distância de um clique, tornaram-se acessíveis, transformando a forma como lidamos com a informação e interagimos com o mundo. Tecnologias como Inteligência Artificial, Blockchain, Analytics, Internet das Coisas, entre tantas outras que, segundo especialistas, estão ainda na “primeira infância”, ganham novas aplicações a cada dia, exigindo mudanças em processos e promovendo atualizações e aperfeiçoamentos nos modelos de negócios. 

Somos movidos pela tecnologia na palma de nossas mãos. No entanto, contrariando a fluidez tecnológica que hoje está presente na forma como nos comunicamos, planejamos uma viagem, assistimos a filmes, ouvimos músicas, acessamos conteúdo ou nos locomovemos, um estudo recente realizado pelo Google e pela consultoria McKinsey apontou que, embora bastante conectado, o nível de competência e familiaridade do brasileiro com o mundo digital ainda é baixo em áreas relevantes para o mercado de trabalho e isso, ainda segundo o estudo, causa impacto direto em nossa economia que, até 2025, pode deixar de ganhar cerca US$ 70 bilhões de dólares por falta de qualificação da população em competências digitais.

Esse cenário traz à luz um importante questionamento da atualidade: o modelo educacional vigente no país está ajudando a formar profissionais preparados para enfrentarem os constantes desafios do século XXI? Para o futurista e humanista alemão, Gerd Leonhard, muito embora o Brasil esteja aberto a mudanças e profundamente interessado no futuro, a educação e o treinamento por aqui permanecem firmemente presos ao modelo pré-internet, de “baixar conhecimento” para uso posterior, e isso precisa mudar. 

Gerd Leonhard

“Estamos entrando na era em que as máquinas começam a ‘saber’ as coisas e o machine learning potencializa a maioria dos avanços tecnológicos. Precisamos estar preparados para, constantemente, adicionar habilidades e novas forças derivadas do ‘ser humano’, em vez de buscarmos ser mais rápidos ou melhores que computadores. Uma grande porcentagem dos empregos de 2030 ainda nem existe e muitos deles não terão o formato que conhecemos, com empregos fixos e em escritórios. A maioria será virtual e sob demanda ou ‘gig economia’. Isso significa que teremos que aprender continuamente coisas novas e expandir nossa compreensão de coisas que somente humanos podem entender”, alerta.

Aprendizagem contínua

De acordo com o Adm. Ricardo Pelegrini, CEO da Quantum4, o ciclo básico de educação, que nos leva a dedicar cerca de 16 anos de nossas vidas ao aprendizado de conteúdos que, teoricamente, deveriam contribuir para o nossa formação profissional, hoje, com a atual velocidade tecnológica e de informação, já não dá conta de atender às demandas do mercado. “Atualmente, você sai da universidade e as coisas continuam mudando. 



Ricardo Pelegrini

Muito do que você aprendeu perde rapidamente a aplicabilidade. Isso significa que parar de estudar não é uma opção. Se o profissional busca estar atualizado com as oportunidades que serão abertas no mercado, tem que dar lugar a um novo mindset de aprendizado, que lhe possibilitará acompanhar os movimentos que certamente ocorrerão nas organizações e, mais do que isso, o ajudará a liderar pelo conhecimento algumas dessas transformações para, quem sabe, alcançar posições de liderança na carreira ou se tornar um empreendedor de grande sucesso”, diz.

Diante da dificuldade que a educação nacional encontra para organizar conhecimento e criar programas com a mesma velocidade que a informação chega às nossas vidas - o volume de informação no mundo hoje dobra a cada 12 horas - a responsabilidade pelo desenvolvimento passou a ser, também, do próprio profissional. Segundo André Souza, CEO da Futuro S/A, esse é, igualmente, um grande desafio, porque não fomos ensinados a nos autodesenvolver, assim como não aprendemos a ser criativos e curiosos - duas habilidades que, para ele, são indispensáveis para o autodesenvolvimento; adaptáveis, para resistir aos constantes processos de mudança; e a praticar o pensamento empreendedor, no sentido de estar sempre em busca de oportunidades e de transformar essas oportunidades em soluções. 

Nesse contexto, segundo o especialista, uma forma de promover a conscientização quanto à importância de manter o aprendizado pode ser viabilizada pelas organizações por meio do estímulo ao “senso de urgência”. “Toda empresa tem uma visão de futuro, de onde ela quer chegar daqui dois ou três anos.

André Souza

E para ser diferente do que ela é hoje, ela precisa fazer coisas diferentes. Quanto mais claro for para o profissional o que a organização precisará fazer para alcançar esse objetivo, mais rápido ele entenderá qual o seu papel nesse processo. E na hora em que ele entende isso, começa a despertar para o que não sabe fazer e se conscientiza de que, apesar de ser útil no presente, pode não chegar a ser útil no futuro. Isso gera internamente um senso de urgência no profissional, que começa a se movimentar, naturalmente, para não ficar para trás. Veja, a questão aqui não é a chegada das tecnologias. Elas são apenas meios de fazer as coisas acontecerem. A capacidade do profissional se diferenciar não virá de sua habilidade de usar essas novas tecnologias, mas de sua compreensão do que está por trás de sua necessidade de desenvolvimento”, destaca.  

Virando a chave

A célebre frase do futurista e escritor norte-americano, Alvin Toffler, que afirma que “os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não conseguem ler e escrever, mas aqueles que não conseguem aprender, desaprender e reaprender”, nunca fez tanto sentido como agora. Porém, ainda há profissionais que resistem em aceitar que a era da reaprendizagem chegou para ficar. Para o especialista em neurociência, José Helio Contador, da HCont, há uma explicação: “Nosso cérebro funciona no formato de associar, integrar e comparar uma informação nova com algo que já está gravado na memória, algo já conhecido. Por isso, algo que é novo, e não faz parte das nossas experiências anteriores, pode se tornar estranho e até uma ameaça por ser desconhecido.” 

José Hélio

De acordo com Contador, uma forma de estimular o cérebro a sair dos caminhos neurais rotineiros e buscar novas alternativas, seria por meio do exercício da criatividade. E isso se consegue, segundo ele, ampliando o olhar para o mundo, conhecendo novos lugares e culturas, aprendendo a tocar um instrumento musical, participando de feiras, congressos, workshops, eventos de temas diversos, lendo livros e assistindo a filmes. Além disso, ele enfatiza que, por sermos únicos e com experiências e conhecimentos diferentes, temos interesses e velocidades de aprendizado diferentes, por isso, é imperativo que os profissionais se libertem dos padrões atuais de ensino e encontrem, no aprendizado autodirigido, as motivações para continuarem na trilha do conhecimento. “Com a perspectiva de vivermos cada vez mais, é certo que venceremos a barreira dos 100 anos com várias mudanças de carreira e de empregos. A busca do conhecimento segue para sempre e dependerá, exclusivamente, do propósito de vida de cada um”, constata. 

Como estímulo a esse novo mindset, Maurício Turra, sócio-fundador da NEXTT 49+, afirma que mercados em mudança são assustadores para quem se apega a apenas um jeito de atuar, mas são maravilhosamente desafiadores para quem busca enxergar oportunidades não apenas de sobreviver, mas de crescer: “O mais importante da aprendizagem é saber compreender o processo, os facilitadores e não a rotina ou princípios aprendidos e que poderão não valer mais em breve. Quem aprende e sabe como aprende, dá saltos à frente, pois faz da aprendizagem contínua o seu motor de avanço”.

E ao que tudo indica, as organizações no país parecem ter começado a captar essa essência, passando a, também, contribuírem com a qualificação de seus profissionais, atentos a questões como retenção de talentos, melhora da performance e promoção da inovação. É o que mostra o estudo inédito “Educação Corporativa no Brasil”, realizado pela Deloitte. 

Maurício Turra

Das 126 empresas pesquisadas, 28% declararam já possuir universidade corporativa e outras 28% sinalizaram interesse em criar a estrutura. Além das universidades corporativas, que aparecem como uma das principais tendências de ensino no âmbito das empresas, a educação a distância também vem ganhando espaço nas organizações. Isso se deve, em partes, à percepção de que, após os primeiros e fortes impactos da mudança proporcionada pelas novas tecnologias, o fator mais importante dentro das organizações ainda é o humano.

Porém, a despeito do crescimento da educação corporativa ser vista como algo benéfico para o desenvolvimento do país, Conrado Schlochauer, fundador da Teya e embaixador da Singularity University São Paulo - que recentemente participou da gravação da série ADM em Minutos, para o Canal a Serviço da Administração do CRA-SP - alerta que as organizações precisam estar atentas na criação de seus programas de Aprendizagem Corporativa, para não correrem o risco de utilizarem a mesma receita para necessidades e contextos diferentes, deixando o profissional em situação passiva de aprendizado: “Aprendizagem não é adquirir conteúdo, mas colocar o conhecimento para fora, por meio de uma performance melhorada. Aprender é fazer algo melhor.”


Abra-se ao conhecimento

Habilidades precisam ser descobertas, desenvolvidas, nutridas e exercitadas. É nisso que acredita o futurista Gerd Leonhard, que acrescenta: “Vamos deixar a ideia de que ‘aprender é para quando somos jovens’ totalmente para trás. Desaprender e reaprender está se tornando o novo normal.” Então, que tal começar agora mesmo? E o melhor, de graça! Diversas instituições no Brasil e no exterior oferecem cursos gratuitos a distância, que desenvolvem capacidades para a iniciação no mundo do trabalho ou para a atualização das competências profissionais. Confira algumas delas:

A plataforma www.coursera.org, idealizada por dois professores da Universidade Stanford, reúne uma infinidade de cursos ministrados em instituições internacionais, mas também nacionais, como Insper, Fundação Instituto de Administração (FIA), Fundação Lemann, Unicamp, Instituto Tecnológico de Aeronáutica e a própria USP. Vale a pena conferir!

O futurista e humanista alemão, Gerd Leonhard, fala sobre o futuro da aprendizagem, 

treinamento e educação.



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